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Um olhar sobre o mundo pós-pandemia – Everton Santos

Como historiador de formação, é preciso que eu diga que nada é mais desfocado e movediço do que o futuro. Se há desfoque no passado, apenas observado através das lentes metodológicas e dos interesses dos historiadores pautados pelo presente, mais complicado é o tempo futuro.

Dito isso, este pequeno artigo não é uma bola de cristal imersa na futurologia. Não sei sobre as novas profissões que virão e quais perecerão. Mas há considerável segurança em dizer que as mudanças serão profundas – e não no futuro distante. Assim vem nos mostrando a História, com os numerosos momentos de inflexões que resultaram em grandes transformações.

A discussão corrente fundamental, ou seja, que está em uma primeira camada – e não poderia ser diferente – é sobre a grande mortandade do Covid-19 no Brasil e no mundo. No Brasil, vale tocar, mesmo com a gigantesca subnotificação, a curva de óbitos está em um ângulo quase vertical, tornando o cenário simplesmente sombrio. Em uma segunda camada, os impactos econômicos. No último dia 30 de abril, na Europa, onde tem uma estrutura econômica e social muito melhor do que a nossa, a nova presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, aponta para uma diminuição do PIB da zona do euro entre 5% e 12%, o que considera como algo “sem precedentes em tempos de paz”. E há uma terceira camada, que está em várias mídias, que busca conjecturar sobre como sairemos desse processo[1]. Vem sendo recorrentes as reportagens que destacam os campos que poderão sair fortalecidos e àqueles que sofrerão.

Alguns dos campos que poderão sair fortalecidos, segundo as reportagens:

  • Áreas de Tecnologia e Conectividade;
  • Educação a Distância;
  • Imersão cultural online.
  • Homework;
  • E-commerce;
  • Delivery;
  • Economia Verde.

 

Alguns campos que poderão sair enfraquecidos, segundo as reportagens:

  • Shows ao vivo;
  • Cinemas;
  • Viagens;
  • Hotéis;
  • Shoppings;
  • Bares e Restaurantes;
  • Imóveis corporativos.

 

Em dois de seus livros, “Homo Deus: uma breve história do amanhã” e “21 lições para o século XXI”, o historiador israelense Yuval Harari apresentou os processos transformadores que já estavam em curso na década de 2010, e que batem justamente com todas as áreas que são hoje apontadas como potenciais vencedores do mundo pós-pandemia. Contudo, há um alerta que ele faz, mas que passa ao largo das principais publicações: os avanços tecnológicos, com o uso cada vez mais profundo dos algoritmos, tornarão os homo sapiens paulatinamente “irrelevantes”.

 

Com os dados econômicos pressionados, com as fobias sociais que invariavelmente se apresentarão, empresas serão instadas às mudanças mais aceleradas do que seriam necessárias em tempos normais. A anormalidade desta nova era acelerará as exigências por estruturas mais enxutas e mais eficazes. Reuniões corporativas poderão migrar mais amplamente, por exemplo, para searas intermediadas por apps. No meio desta pandemia, as ferramentas para reuniões são as novas queridinhas. O Meet (Google) e o Zoom estão sendo apresentados para um contingente que nunca havia sequer ouvido. Para muitas empresas do pós-pandemia, elas serão opções de primeira ordem.

O atual processo poderá resultar em empresas destacando seus funcionários para desenvolverem cada vez mais atividades em casa, o homework, buscando diminuir assim os seus custos fixos com água, luz, telefone, cadeiras, mesas, insumos de escritório, aluguéis etc. Isto impactaria, sem dúvida, os setores aéreo, hoteleiro, turismo, combustível, transporte urbano. Não seria difícil imaginar que o já devastado setor de restaurante das regiões centrais das cidades seria ainda mais impactado.

Em cenário assim, cada setor, com o sentimento máximo de sobrevivência, se perguntará num looping aterrador: o que posso cortar na empresa? O que posso automatizar? Como posso diminuir os meus custos com o meu empregado? O que posso fazer para não ter um custo humano? A irrelevância dos sapiens vai tomando corpo.

É claro que alguns setores citados poderão sair enfraquecidos, não pela falta de vontade de realizar, mas pela estrutura de emprego fragilizada da sociedade, o que causaria cautela ou desesperança. As pessoas continuarão com vontade de ir para as praias do nordeste, para o Rio de Janeiro, Serras Gaúchas, para Disney, Europa ou Japão. Mas para isso é preciso remuneração e pelo menos uma mínima segurança no trabalho.

É igualmente claro que alguns setores sairão aquecidos, como previamente apontado. Que empregos serão ali criados. Mas o Brasil, com uma força de trabalho com baixa especialização, apenas o delivery conseguiria ser mais amplamente acessível. O trágico é ser justamente essa área a que tem as piores remunerações e laços de trabalho.

Dessa forma, a política, elemento detestado pela maioria, precisa ser cobrada a agir, sem as fantasias e as retóricas de um mundo que não existe há pelo menos 30 anos. A “Grande Depressão” dos anos de 1930 pode ser olhada daqui 20 anos como apenas uma “tristeza” ou “chateação” se os agentes socioeconômicos, especialmente os mais frágeis, não forem devidamente cuidados e protegidos. Porque a resultante desse processo pode ser a raiva e convulsões sociais sem precedentes.

[1]Como o coronavírus vai mudar nossas vidas: dez tendências para o mundo pós-pandemia.” In El Pais, 13 de abril de 2020; “Coronavírus: 7 tendências para o mundo pós-pandemia”. In Época Negócios. 27 de abril de 2020; “Come cambierà il mondo dopo il coronavírus? Dalla scuola al commercio, 10 cose che non saranno più le stesse” In Corriere della Sera. 15 de abril de 2020. “Coronavirus: the world after the pandemic” In: Financial Times. Abril de 2020.

Everton Santos é o autor desse artigo.

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