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República Federativa do Avestruz – Everton Santos

Vários são os fatores para um país enricar e, o mais importante, oferecer qualidade de vida aos seus habitantes. Para mim, o mais central é saber encarar de frente os seus problemas históricos. A dívida não caduca depois de um tempo. Fica ali, assombrando geração após geração. Os fantasmas do sistema colonial, da escravidão e dos regimes ditatoriais cobram-nos um fardo que parece sempre inquebrantável.

A 30 km do centro de Munique (Alemanha) há um dos tantos exemplos de como encarar suas dívidas, os seus fantasmas. Na pequena cidade de Dachau, existe o Campo de Concentração que leva o mesmo nome da cidade. No berço do nazismo, foi o primeiro a ser construído, ainda em 1933, com foco especial, pelo menos nos primeiros anos, nos opositores políticos – comunistas, socialistas e outros. Depois ele entrou na cadeia geral de extermínio da “Solução Final”. Pelo seu pioneirismo, era um campo de concentração “escola”, servindo assim como modelo para os demais campos (de concentração e de extermínio) construídos na Europa ocupada pelas forças nazistas. Ali foram presos algo em torno de 200.000 pessoas. Os mortos foram de pelo menos 43.000. Em 29 de abril deste ano, foi comemorado o 75º aniversário da libertação daquele campo pelas tropas americanas. Mas por que estou falando de Dachau?

A Alemanha, ao contrário da gente, deixa o machucado exposto para não repetir o mesmo erro. É mantido assim esse memorial de dolorosa carga. É um daqueles passeios que as pessoas dificilmente aparecem sorrindo. As pessoas falam baixo. Você sai reflexivo e com nó na garganta. Com a lição aprendida e sempre lembrada, como podemos ver, eles seguiram em frente. A Alemanha moída pela insanidade nazista é hoje o país mais próspero da Europa.

Na pandemia deste ano, a chanceler Angela Merkel e o povo alemão, sem colocarem as suas cabeças embaixo da terra, agiram contra o coronavírus, e foram bem menos impactados do que os seus vizinhos negacionistas. Além disso, aproveitou o ensejo para botar na rua o mais ambicioso plano de reengenharia econômica daquele país desde o fim da 2ª Guerra Mundial. Trilhões de euros serão investidos nas empresas, nas áreas tecnológicas e numa economia verde/sustentável. Pensam e agem para os próximos 20, 30 anos.

O Brasil é lamentavelmente um avestruz. A política atual é de esconder ou maquiar o problema. O caminho certo, sem precisar ser gênio, é conhecer muito bem os números, mapear e agir contra o vírus inimigo. É hora de ganhar a guerra atual criando os instrumentos necessários para acabar com os principais – e históricos – problemas sociais. Mas o presidente acha que é contra o Brasil saber a profundidade do problema. Que isso é só dar manchete para o Jornal Nacional. Se na vida de um indivíduo essa prática já não dá certo, imagina em um país…

Semana passada, o aliado mais venerado do presidente brasileiro, Donald Trump, disse que o Brasil é um mau exemplo. Que nós seguimos a Suécia. Que se ele tivesse seguido a gente, o povo americano teria até 2.5 milhões de mortos. Bem, somos sim um mau exemplo, mas seguimos especialmente o mau exemplo do próprio presidente americano. O desdém com o vírus e as pílulas salvacionistas – cloroquina e hidroxicloroquina – advieram do Trump, devemos sublinhar. Ele tenta agora apontar para os bodes na sala. Com eleições presidenciais marcadas para novembro, ele precisa relativizar os próprios erros, apontando para os erros piores.

Quanto às críticas do presidente americano, o nosso continua em silêncio. Contudo, internamente, grita cada vez mais alto. Aponta para bodes na sala e vê complôs em toda a parte. Diz que faz a parte dele, mesmo sendo as suas preocupações exclusivas: maior liberação da economia (no pior momento possível, pois chegaremos ao 2º lugar mundial de mortos em breve); liberação de mais armas nas ruas; a eleição de 2022.

A História e o seu povo julgarão se tem ele razão ou não. O fato desalentador para além de tudo é que temos mais uma geração que não enfrenta o seu passado, é inábil no presente e que quase nada planta para o seu futuro.

Everton Santos é o autor desse artigo.

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