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Qualquer Semelhança é Mera Coincidência? – Everton Santos

Em 1852, Karl Marx, o filósofo mais amado e odiado dos séculos subsequentes, lançou o livro 18 de Brumário de Luís Bonaparte.

Logo no início do livro, Marx escreveu: “Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes.”  Com certa ironia, ele complementou:

“(…) e esqueceu-se de acrescentar: a primeira como tragédia, a segunda como farsa. Caussidière por Danton, Louis Blanc por Robespierre, a Montanha de 1845-1851 pela Montanha de 1793-1795, o sobrinho pelo tio[1]. E a mesma caricatura ocorre nas circunstâncias que acompanham a segunda edição do Dezoito Brumário![2]
(…) A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos
[3].

A ideia principal desse trecho é que homens buscam, mesmo quando dizem querer criar algo novo, copiar os homens do passado, “tomando-lhes emprestados os nomes, os gritos de guerra e as roupagens”. A História nunca se repete com todos os pingos, com todas as nuances, mas por muitas vezes guardam profundas semelhanças, por conta dessa busca voluntária do passado ou das condições concretas legadas.

Recebi, com um certo riso nervoso, uma vez mais, as palavras de Hegel e Marx na manhã de 26 de maio último. Com a operação Placebo, executada pela Polícia Federal, explodiu a notícia de que a primeira-dama do Estado do Rio de Janeiro, Helena Witzel, prestava supostos serviços advocatícios à empresa DPAD Serviços Diagnósticos Ltda, do empresário Mário Peixoto, num valor de R$15 mil por mês, tendo já recebido R$ 115 mil.[4]

Mario Peixoto é um velho conhecido da política fluminense. Na era Cabral e Pezão, os contratos com suas empresas somaram R$1 bilhão. Com Witzel, Mário Peixoto foi vencedor, sem licitação, de um contrato para administrar os hospitais de campanha para tratar dos doentes da Covid-19. Pouco foi realizado, mesmo com pagamentos milionários. Há ainda suspeitas em outros órgãos estaduais.

Helena Witzel afirmou que fez tudo dentro da legalidade, com serviços verdadeiramente prestados e declarados à Receita Federal. Apontou sofrer ainda uma perseguição. O seu marido, governador Witzel, apontou na mesma direção. Afirmou ser vítima de perseguição do Planalto.

A História com seu poder de semelhança… A tragédia sanitária do coronavírus trouxe à superfície algo de ruim. Parafraseando Marx, parece, ao menos, Helena Witzel por Adriana Ancelmo. A primeira caricaturando a segunda.

Remontemos um pouco à família Cabral.

Em 17 de junho de 2011, na região de Trancoso, litoral sul da Bahia, um grupo, depois de jantar no Villa Vignoble Terravista Resort, pegou um helicóptero em direção ao Jucamã Ocean Resort, numa noite chuvosa. Com a queda, morreram Mariana Noleto; Jordana Kfuri e seu filho Luca; Fernanda Kfuri e seu filho Gabriel; Norma Batista (babá); Marcelo Almeida, dono do resort Jucamã Ocean.
Mariana Noleto era namorada de Marco Antônio Cabral, filho do governador; Jordana Kfuri, mulher do empreiteiro Fernando Cavendish, dono da Delta Construções.

Ninguém da família Cabral estava no helicóptero. Mas começava ali a lenta morte política do clã. Ficou exposto que a família tinha uma relação muito próxima com o empreiteiro Cavendish, vencedor de várias obras públicas, incluindo a reforma do Maracanã para a Copa do Mundo e a construção do Arco Metropolitano.

Daquela noite, daquela tragédia, um celular expôs as fotos que simbolizariam a era Cabral: a Farra dos Guardanapos. Em 14 de setembro de 2009, ao sabor do champagne Dom Pérignon e do vinho português Barca Velha, a festa nababesca foi até de manhã no Hotel de la Païva, que fora construído entre 1856 e 1866 na Champs-Élysées, justamente durante o reinado de Luís Bonaparte (Napoleão III), aquele do “novo 18 de Brumário”.
Sérgio Cabral dizia não ver nenhum problema ético nas suas relações de amizade com os personagens vencedores dos contratos com a administração pública estadual. Tampouco via qualquer irregularidade ou desvio nos contratos entre o escritório da sua mulher e os prestadores de serviços/concessionários do Estado. Dizia que em nenhum momento intervinha em nome dos clientes da mulher, que tudo era devidamente declarado à Receita Federal etc…

Neste ano, com mais de 267 anos de pena, Sérgio Cabral confirmou que o escritório de Adriana Ancelmo era usado para lavar dinheiro da gigantesca máquina de corrupção que ele chefiou. O caso de Helena Witzel precisa ser investigado, mas os sinais do passado “oprime como um pesadelo” as mentes dos homens do presente.

Ao longo das últimas semanas, vi chegar a hora do “Cláudio Castro por Michel Temer”. O primeiro, atual vice-governador de Witzel; o segundo, fora vice-presidente de Dilma Rousseff.

Cláudio Castro foi vereador da cidade do Rio de Janeiro, assumindo uma suplência. Ele foi ainda assessor parlamentar do deputado Márcio Pacheco na Alerj, a mesma que julgará Witzel. Michel Temer, por seu turno, foi deputado constituinte, deputado federal por vários mandatos e presidente da Câmara Federal por três vezes.

Os últimos passos de Castro copiam (ou caricaturam) os passos de Temer. Este, quando já via os urubus sobrevoando o mandato de Dilma, decidiu escrever-lhe uma carta com um longo “desabafo”. Para “surpresa” do remetente, ela “vazou”.

Um dos eixos centrais do “desabafo” foi a temática da desconfiança:

“ (…)sempre tive ciência da absoluta desconfiança da senhora e do seu entorno em relação a mim e ao PMDB.” e “(….) Finalmente, sei que a senhora não tem confiança em mim e no PMDB, hoje, e não terá amanhã. Lamento, mas esta é a minha convicção.”

Cláudio Castro começou a dizer que é vítima da desconfiança do grupo que cerca o governador. Que este cria dossiês para fragilizá-lo. Assim como Temer, começou a conversar cedo com os parlamentares sobre um novo governo; assim como Temer, não se moveu para defender o (a) titular; assim como Temer, prometeu diálogo; assim como Temer, prometeu uma “gestão parlamentarista”.

Em uma reportagem do jornal “Extra”, o jornalista Paulo Cappelli sintetizou a fala de um parlamentar da Alerj:

“O Witzel é um cara do bem, mas tem uma postura soberba. Foi juiz por muitos anos, então adota aquele tom formal, meio que olhando de cima para baixo. Já o Cláudio é conhecido dos deputados desde que era assessor do Márcio Pacheco. É cria da Alerj. Então o deputado pensa: ‘Se eu tenho ‘x’ cargos no governo com o Witzel, com o Cláudio posso ter muito mais’. Fica até difícil para Witzel barganhar.”

Cláudio Castro é hoje visto como “cria” da Alerj, assim como Temer era “cria” do Congresso Nacional quando do impeachment da Dilma. A classe política sente sempre com espetacular refino o cheiro de sangue fresco no ar. O cadafalso de Witzel está preparado.

Mas como vimos em Maquiavel, os ventos que colocam no poder pessoas tributárias às armas ou fortuna de outrem, são os mesmos das intranquilidades constantes para o novo príncipe (governante).

Michel Temer, mesmo com toda a sua experiência parlamentar, tornou-se presa do fisiológico Centrão, especialmente depois do áudio com um dos donos da JBS, Joesley Batista. Seu governo, a partir dali, sobreviveu por aparelho durante um ano e sete meses. A sua virtude foi não ter sido impichado. Saiu como o mais impopular presidente desde a redemocratização.

Cláudio Castro, apesar de ser visto como “cria” e “conciliador”, é também visto como alguém “sem voz de comando”. É a fortuna não vindo com a virtude própria. Um futuro governo Castro poderá ser ainda mais dependente da Alerj e das práticas, digamos, não republicanas. Olhando o passado, é fácil ver que os deputados saberão cobrar regiamente a fatura.

Bem, na semana passada, falamos dos padrinhos de Witzel na campanha: os Bolsonaros. A fortuna parece dia após dia ficar mais longe do afilhado. Mas há a mesma movimentação em relação aos padrinhos. O mais próximo da campanha de Witzel, o senador Flávio Bolsonaro, como numa roleta, começa a ver a sua fortuna esvair-se também.

Fabrício Queiroz, seu ex-chefe de gabinete na Alerj, foi encontrado pela polícia civil paulista na casa do agora ex-advogado da família presidencial, Fredrick Wassef. E com aquele requinte que a História gosta… A Atibaia de Lula virou também dos Bolsonaros. “Todos os grandes fatos ocorrem, por assim dizer, duas vezes”, recordemos Hegel.

Assim acabou o equinócio de outono, com pelo menos 50.000 mortos pela Covid-19 no Brasil. Ventos frios e sombrios se deslocam de e para Brasília. The winter is coming… (O inverno está vindo…)

[1] Luís Bonaparte era sobrinho de Napoleão Bonaparte. O escritor Victor Hugo chamava-o sarcasticamente de “Napoleon, Le Petit” (Napoleão, o pequeno). A eterna comparação com o tio marcou o seu reinado.

[2] Autogolpe dado pelo presidente Luís Bonaparte, em 1851, com apoio da burguesia e dos militares, por maiores poderes. No ano seguinte, convocou um plebiscito no qual propunha a restauração da monarquia. Com a vitória, tornou-se Napoleão III (1852-1870).

[3] MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte.

[4] O contrato era até agosto de 2022.

 

Everton Santos é o autor desse artigo.

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