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Mundo do Trabalho no novo século XXI – Everton Santos

Nos artigos intitulados “Covid-19 e o Novo Século XXI” e “Um Olhar Sobre o Mundo Pós-Pandemia”, que escrevemos aqui no Portal Shalom, já apontávamos para o caráter transformacional da atual pandemia. Gostaríamos agora de aprofundar um pouco o nosso olhar sobre o mercado de trabalho.

No O Globo deste último domingo, 17/05, o chefe da consultoria Bain & Company América do Sul, Alfredo Pinto, afirmou: “Estamos convictos de que o coronavírus será a pá de cal sobre a globalização”. Segundo ele, as empresas buscarão alternativas mais locais para as suas cadeias de suprimento.

Particularmente, vejo um certo exagero nessa análise, mas é claro que há a possibilidade de mudanças nas estruturas produtivas globais num médio prazo. E, nesse cenário hipotético, mesmo que sejam eventuais mudanças marginais, elas acarretariam instabilidades nos países/regiões perdedores – e em seus milhões de trabalhadores.

Mas a despeito desse olhar global, temos transformações que já estavam ocorrendo, mas que ganharam maior relevância no atual cenário de pandemia. A principal delas é o desenvolvimento de um ecossistema digital para as empresas e seus colaboradores. O e-commerce, objetivo máximo desse ecossistema, vem crescendo em termos vertiginosos, principalmente se colocarmos em perspectiva que a economia brasileira vegetou nos últimos anos e caminha com passos fortes em direção à depressão neste ano. Comprar no celular ou no computador passou a ser cada vez mais comum.

É necessário dizer que é evidente que nem tudo será digital, disruptivo, pós-moderno. Que ainda teremos o ambulante, o carregador, o pintor, o pedreiro, o padeiro, a doceira, o entregador, a manicure, o comerciante do shopping etc, com as suas atividades principais (core businesses) não digitais.  Mas quem não estiver com pés também no digital será atropelado. As escolhas atuais dos produtos e serviços estão sendo cada vez mais feitas através do Instagram, WhatsApp, Facebook, Pinterest, Ifood, Uber Eats. A pandemia não criou esse mundo digital, mas certamente acelerará esse movimento, impactando o mundo do trabalho e demandando novas habilidades.

Nessa toada transformacional, uma das facetas que está em destaque é o teletrabalho (ou home office). Este era visto por boa parte das empresas como inaplicável ou um caminho para o ócio dos seus colaboradores. Entretanto, a contragosto de muitos, essa modalidade tornou abruptamente o caminho obrigatório. Vale indagar: com o cenário posto, está sendo uma transação fácil afinal?

A migração da forma do trabalho, como qualquer outra grande transformação, não está sendo fácil. As empresas deveriam estar pensando no momento: será que os funcionários contam com uma boa infraestrutura de internet? Será que contam com mesas e cadeiras adequadas? Os ambientes são ventilados e bem iluminados? E os filhos pequenos? São quantas pessoas na casa? Porque tudo isso impacta no trabalho, principalmente no longo prazo. E sabemos que isso será levado em consideração na hora de admitir ou demitir, ainda mais num mercado que tenderá a ficar ainda mais selvagem.

Uma pesquisa feita pelo Banco Original em parceria com a consultoria 4CO, teve como objetivo saber como os trabalhadores estão sendo impactados no home office. Ela revelou que 57% dos trabalhadores consideram que está sendo mais cansativo do que era nos seus locais tradicionais de trabalho. Além disso, a pesquisa apontou que 70% considera que trabalha igual ou mais do que antes da epidemia. É uma primeira fotografia, mas que começa a dar uma resposta àquela cresça negativa até pouco tempo difundida entre os donos das empresas de ser uma modalidade pouco produtiva.

Com o trabalho entrando em casa, local por excelência da vida pessoal, o coordenador da pesquisa, Bruno Carramenha, alerta que será preciso encontrar um equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal, sob pena de observarmos um crescimento significativo de bornout, que é o distúrbio psíquico de caráter depressivo, precedido de esgotamento físico e mental intenso. Aí fica mais um questionamento: as empresas atuarão para minimizar esses efeitos ou continuarão o modus operandi de sempre, qual seja, a simples substituição de “quem não aguenta o tranco”?

A sociedade, as empresas e os governos deverão observar esse movimento significativo no mundo do trabalho, não devendo deixar ninguém no desamparo, no desemprego, na irrelevância. É o ponto crucial para a estabilidade de qualquer sociedade. Não podemos falhar mais uma vez.

Everton Santos é o autor desse artigo.

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