Anterior
Próximo

Covid-19 e o novo século XXI

Na década de 1990, chegava ao fim a série as “Eras”[1], do historiador inglês Eric Hobsbawn. A última obra chamava-se “A Era dos Extremos: o breve século XX (1914-1991)”, marcando o início da Primeira Guerra e o fim da União Soviética.

A década de 1990 marcou, inclusive no Brasil, a entrada em massa de artigos ainda então de luxo: telefones fixos, celulares, computadores domésticos, internet e os primeiros programas de comunicação em rede, tais como ICQ e IRC. A passagem para ano 2000 era vendida como o fim dos tempos, o Bug do Milênio, já que poderiam colapsar o sistema de telecomunicações, visto que o mesmo, tal como era dito, não teria sido produzido para zerar a parte do ano (01/01/00, por exemplo). Mas em tudo isso víamos como os ventos do século XXI.

Os anos de 2000 e 2001 foram marcados pela crise das PontoCom e pelos atentados aos EUA, respectivamente. Em 2008, a mais virulenta crise do sistema capitalista até então, com a quebradeira generalizada dos bancos americanos, envolvidos até o pescoço com os subprimes. Mas 2020, depois de quase 12 anos de expansão, a virulência veio, e agora de fato, de um vírus. O Covid-19 moeu credos político-econômicos, típicos dos bull markets. Os impactos atuais são os mais intensos vistos ao longo de todo o capitalismo. As suas consequências, naturalmente, serão sentidas por muitos anos, e em vários sentidos. Seguramente abre-se agora o capítulo 1 do século XXI. Os últimos 30 anos, desde o colapso soviético, parecem no momento um preâmbulo.

Os governos e os bancos centrais de todo o mundo, aturdidos pelo ineditismo da potência epidemiológica, estão injetando trilhões de dólares nos mercados, tanto no primário (virando sócios diretamente) como no secundário (via bolsa de valores). Os números são superlativos, em termos sem paralelos quando olhamos no retrovisor. O FED (Federal Reserve), apenas em 12 de março de 2020, injetou US$1,5 trilhão. E isso depois de ter feito outras intervenções de US$ 500 bilhões. O governo americano ainda pôs em prática algo impensável há poucos meses: o helicopter money, que é a distribuição direta de dinheiro às classes baixas e médias; o que foi copiado aqui, mesmo de forma absolutamente atrasada e atabalhoada. Ainda sim, tivemos a mais rápida queda das bolsas de valores já registrada. De lá para cá, é verdade, tivemos uma ainda tímida recuperação nas bolsas. Mas os sinais ainda não são nada auspiciosos. O número de mortos ainda nos choca – e sem qualquer sinal de arrefecimento.

O setor de petróleo, forte componente da economia do Rio de Janeiro e termômetro global, está sendo impactado severamente. A temperatura do paciente econômico está gélida. Em 22 de abril, a Bloomberg Brasil destacava a análise de Paul Sankey, do Mizuko Bank: “Petróleo a US$ 100 negativos não é impossível com tanques cheios”. Com a baixa demanda pelo ouro negro, os estoques chegaram a níveis históricos. Estão pagando para não ficar com o produto no mercado futuro. É como se você fosse ao mercado, e lá estivesse tão cheio que o dono, desesperado, pagasse R$100 para que você levasse para casa picanha, carvão e cerveja, só para diminuir o estoque – e seu custo de estocagem. O cenário pintado como possível é absolutamente anômalo. De concreto, já no campo da anomalia, na última terça-feira, 21 de abril, o barril tipo WTI chegou a US$ 37,63 negativos no mercado futuro.

Em grande parte dos países, o que inclui o Brasil, o cenário trazido pela Covid-19 está longe do fim. Para um cenário excepcional e de difícil resolução, serão necessárias ações coordenadas nos planos nacionais e internacionais. A aceitação do momento (mesmo não tendo paralelo em muitos aspectos em nossa geração) é motor fundamental para sairmos do ocaso que nos encontramos agora. A negação do que é óbvio e cristalino, como sempre, é o pior conselheiro, dragador de vidas.

Contudo, claro, não quer dizer jogar a toalha e mergulhar na resignação paralisante. É hora de agirmos de forma responsável, empática, com calma e com a noção de que a História é, por excelência, o reino da transitoriedade.

[1] Os outros 3 livros da série de Eric Hobsbawn foram: “A era das revoluções: 1789-1848”, “A era do capital: 1848-1875” e “A era dos impérios: 1875-1914”.

Everton Santos é o autor desse artigo.

Clique aqui para conhecer mais sobre Everton Santos