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A Educação Estadual do Rio de Janeiro em Tempos de Pandemia – Everton Santos

As dificuldades presentes no sistema público são historicamente conhecidas: baixa remuneração dos seus professores, problema de infiltração, umidade, iluminação, ventilação, salas lotadas, indisciplina dos alunos, violência no entorno, dentro… e tantos outros. No cenário atual, obviamente, alguns problemas somem de seus lugares clássicos, já que as escolas estaduais estão fechadas desde meado de março, mas, infelizmente, uma parte desloca-se para as residências de parte dos alunos. Outros, nascentes deste tempo de excepcionalidades, mexem com o modo de ensinar dos professores e escancaram ainda mais as diferenças sociais.

A pandemia exigiu o afastamento dos alunos das escolas no Brasil e no mundo. Em boa parte da federação, inclusive no Rio de Janeiro, os entes políticos estão atônicos. Com péssimas administrações, eleitas em cima de plataformas clientelistas e/ou carismáticas, a área da educação por ser complexa, dispendiosa, concorrente entre os entes federados e de longo prazo, não é tratada tecnicamente e com o esmero necessário para o desenvolvimento nacional. Assim, o atraso vira o nosso lema; sentar para ver no que vai dar, a opção cômoda preferida.

O governo do Estado do Rio de Janeiro, ao menos, decidiu se movimentar. Assinou um contrato – segundo eles, sem contrapartida financeira – com o gigante da tecnologia, o Google. Foi adotada no início de abril a ferramenta educacional Google Classroom. Particularmente, gosto da plataforma, por ser intuitiva, com recursos interessantes e com estrutura já conhecida por um contingente importante. Se for sem custo (o que considero improvável), poderia ser uma ferramenta complementar da educação pública fluminense no mundo pós-pandemia. Mas é necessário sublinhar que não é pílula da salvação. Também há dificuldades e alguns caminhos são erráticos.

A implantação de um sistema educacional com o suporte em plataforma digital mexeu de forma especial e rápida com corpo docente da rede básica estadual[1]. É umas das facetas trazidas pelo caráter urgente do Covid-19 ao mundo do trabalho do novo século XXI[2]. O home-office do professor, tão acostumado com o contato direto com os alunos, não poderia se dar sem grandes questionamentos: como trabalhar determinado assunto? Como não ser nem além e nem aquém? Será que eles vão ler? Como coloco isso na plataforma? Como faço um questionário? E se eu coloco um questionário valendo ponto, como faço? E quem não puder fazer, eu avalio de qual forma? Será que eu consigo dar uma aula usando o Google Meet? Será, ao fim e ao cabo, que eles vão aprender alguma coisa? O mar de dúvidas, mesmo quase dois meses depois, ainda não chegou à maré baixa.

Alguns professores tentam estabelecer contatos mais diretos, através de aulas no Google Meet. Mas lá reclamam também da presença baixa, especialmente nos primeiros horários da manhã. Nos espaços para dúvidas, infelizmente, os professores apontam que poucos são os alunos que postam. Pode ser por vergonha. Aquele negócio de “pagar mico” com pergunta “boba” e ser zoado(a). Alguns driblam isso perguntando aos professores pelo WhatsApp, mas mesmo assim o número é pequeno. Pode ser por completo desinteresse também… pode ser… Mas há uma variável que é importante, que é um complicador filho da nossa desigualdade: o acesso precário à internet.

Para quem viu, assim como eu, a entrada da internet doméstica no Brasil na segunda metade da década de 1990, a velocidade e a presença de celulares com aplicativos é algo espantoso hoje. Na última década do século XX, era preciso ter linha telefônica fixa – algo caro – e pagar por um pacote caro e lento para ter acesso. Hoje é um outro mundo, muito mais veloz. Mas será que o novo mundo é para todos?

Segundo pesquisa de agosto de 2019, realizada pela TIC Domicílios, 70% da população brasileira está conectada à internet; só 50% daqueles das áreas rurais e pertencentes às classes D e E. Em 16 de maio de 2020, a Folha de São Paulo estampou a reportagem “70 milhões de brasileiros têm acesso precário à internet na pandemia do coronavírus[3].  A desigualdade social/espacial, transmutada em nosso foco de agora em digital, impacta uma vez mais, diferindo os alunos ricos e pobres.

Muitos alunos da rede estadual do Rio reclamam que não conseguem ver os vídeos colocados pelos professores. Que não participam do Google Meet por falta de internet rápida. Para outros, o acesso à plataforma do Google Classroom, depois de alguns dias, só com “novos créditos”. Afirmam que só conseguem acessar Whatsapp e Facebook por serem ilimitados. Sabemos que pagar a conta, colocar “créditos”, isso tudo é cada vez mais complicado, já que há uma significativa perda de renda nos estratos mais populares. E em alguns casos, nosso paradoxo de todo dia… Mesmo com recursos, o acesso permanece precário, pois, nos locais densamente ocupados, os investimentos em antenas são escassos. O tráfego de dados entra num engarrafamento digital.

Frente ao problema grave de acesso à internet de qualidade, o Estado do Rio, através da sua Secretaria de Educação, prometeu então atuar, especialmente, em três frentes: enviar para os alunos apostilas (chamadas de “Caderno de Atividades Pedagógicas de Aprendizagem Autorregulada”); internet móvel; transmissão de aula na TV.

A primeira, que os alunos já começaram a receber, ao meu ver, é uma ação completamente desnecessária e custosa. Os alunos receberam – ou deveriam ter recebido – os (caros) livros didáticos em fevereiro ou março deste ano. É um material muito mais completo do que a apostila; a segunda, a internet móvel, não há previsão de entrega até hoje, quase em junho. É algo que precisa ser acelerado! Mas, é preciso repisar que, dependendo da área, mesmo com a internet móvel em mãos, o acesso será ainda assim precário por causa da fragilidade de infraestrutura local; a terceira, a televisão. Aulas serão transmitidas na TV Bandeirantes de 6h às 7h, com reprise de 14h às 15h (este, só na região metropolitana, excluindo todo o resto do estado!). A Net e a TV Alerj também vão transmitir. Contudo, são casos menos acessíveis.

Bem, são alguns esforços que, dependendo do cuidado pedagógico e dos custos, podem ser positivos no atual cenário. É o famoso “diferente de zero”, que precisamos ver ainda a eficiência, eficácia e efetividade; seja para quem tem acesso à internet, como também para quem só tem acesso ao modelo físico. Nenhum aluno que queira estudar pode ficar para atrás.

Por fim, sabemos que nem sempre a estrutura física da casa e/ou familiar é a melhor. Por vezes, sabemos, são absolutamente trágicas – agora potencializadas pelo pior cenário de saúde pública dos últimos 100 anos. Mas este artigo serve, de alguma forma, para conclamar que os alunos não percam a fé nos estudos das diferentes ciências. Busquem os livros, a internet, a tv… o que estiver disponível para aprender! As crises sempre passam. É a hora da resiliência. Haverá o amanhã!

 

[1] A educação com suporte em plataforma digital (EaD) não é algo novo. No ensino superior, por exemplo, no nível estadual, temos há 20 anos o CEDERJ, que é o consórcio de universidades públicas (federais e estaduais) presentes no Estado do Rio de Janeiro. Mas mesmo lá, por ser semipresencial, os desafios estão sendo enormes. Com tutorias presenciais, práticas de laboratório (que são presenciais) e provas presenciais, todas elas suspensas pela pandemia, o modo de oferecer a educação superior nessa modalidade está passando por muitas transformações. Conheça:Visite: https://www.cecierj.edu.br/  

[2] Confira o artigo publicado aqui no Portal Shalom: “Mundo do Trabalho no Novo Século XXI” – https://portalshalom.net.br/mundo-do-trabalho-no-novo-seculo-xxi-everton-santos/

[3] CF: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/05/cerca-de-70-milhoes-no-brasil-tem-acesso-precario-a-internet-na-pandemia.shtml.

Everton Santos é o autor desse artigo.

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