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A Crise no Governo Wilson Witzel – Everton Santos

Se você me encontrasse há exatos dois anos, e me perguntasse quem era Wilson Witzel, eu responderia com a maior franqueza do mundo: eu não tenho ideia!

Em 21 de julho de 2018, o pouco expressivo Partido Social Cristão oficializou numa convenção em um clube da Tijuca, na zona norte da capital fluminense, o nome de Wilson Witzel, ex-juiz federal. Este evento foi reportado pela imprensa quase para constar. Pelo menos para fingir isonomia. Usando metáfora do futebol, era aquele time pequeno do interior que está lá e a imprensa precisa “perder” algum tempo noticiando algo. Geralmente bota o repórter mais novato, o estagiário. Fico até na dúvida se de fato mandaram alguém. O site do partido (PSC) e O Globo se parecem. Não sei quem se alimentou de quem. O que vale aqui destacar é que as palavras daquele dia parecem nuvens premonitórias, carregadas, mas de natureza reversa. Primeiro, o então candidato:

 

“(…) Nós vamos implementar a Lava Jato da Segurança, uma força tarefa de investigação com a Polícia Federal, o Judiciário, a Defensoria Pública e outras instituições. Só assim será possível ter resultados efetivos contra o crime organizado e devolver a paz à população”

O presidente nacional do PSC, Pastor Everaldo, disse ainda:

“(…) Precisamos de alguém com preparo para enfrentar esse momento, alguém que tenha compromisso com o futuro do Rio de Janeiro. A partir de 2019, o nosso estado não estará mais nas páginas policiais. Estará nas páginas de prosperidade e progresso.” (meus grifos).

 

Ledo engano. Com toques requintados de déjà vu, o ex-juiz governador passou a figurar nas capas policiais a partir da Operação Placebo da Polícia Federal, em 26 de maio. No último dia 10 de junho, pouco menos de dois anos depois da convenção, o pastor disse ter “fé” de que Witzel se livrará das investigações da PF.

Ainda com um processo em curso no STJ, o resultado foi uma autorização acachapante para o processo de impeachment do executivo estadual na ALERJ: 69×0 (podemos dizer, placar do primeiro tempo). Nos meus quase 40 anos, não vi caso assim. Nem parecido. Recorri à História, mas não encontrei. Percorrer um pouco esse enredo é importante para vislumbramos as razões possíveis para esse débâcle (queda, desastre) sem precedentes. “Só” um possível envolvimento em ato ilícito não dá conta, pois aquela casa legislativa é marcada por negociatas, lavagens de dinheiro, crimes contra o patrimônio público, rachadinhas etc. Os últimos dois governadores se envolveram em crimes bem maiores, e a ALERJ foi absolutamente leniente. Luiz Fernando Pezão, mesmo preso, não foi julgado pela casa. Em janeiro de 2019, os deputados que estavam presos no início da legislatura, por conta da operação Cadeia Velha, foram diplomados na cadeia.

Com tudo isso posto, o fato desta semana é de um atipicismo ímpar. O que aconteceu não faz parte do DNA daquela casa. Precisamos formular perguntas! Temos uma nova ALERJ neste ano de 2020? Quais foram os erros cometidos no campo político? O cenário nacional pode ter influído? Quais foram as acusações? Há chance de reversão? Tantas outras poderiam emergir.

A campanha de Witzel foi marcada pelo discurso moralizante, bélico, mas também pela presença frequente de Flávio Bolsonaro, um dos líderes naquela corrida ao Senado. Mas os analistas políticos, em cima das pesquisas eleitorais na véspera do pleito, davam como mais provável o segundo turno fluminense entre Eduardo Paes e Romário. Segundo o Ibope, naquela fotografia, Paes tinha 32% (margens 34%/30%); Romário 20% (margens 22%/18%); Índio da Costa 12% (margens 14%/10%); e Wilson Witzel 12% (margens 14%/10%).

No debate na Globo para o governo estadual, dias antes do pleito, Eduardo Paes precisou ficar mais na defensiva do que em ações propositivas. Ele era, até então, o líder nas pesquisas e o único com experiência administrativa. Era o telhado de vidro. A estratégia fundamental dos adversários (especialmente Índio da Costa, Witzel e Tarcísio Motta) foi de apontá-lo como o “nervosinho” da planilha da Odebrecht. Que as obras para as Olimpíadas foram marcadas pela corrupção. Buscaram relembrar, sistematicamente, que ele foi do PMDB, partido de Cabral e Pezão, e que fora próximo daqueles personagens.

O segundo colocado nas pesquisas, o ex-jogador Romário, teve uma atuação simplesmente desastrosa. Não conseguia fechar um raciocínio. Parecia sonolento… nem precisou ser atacado.

 E Wilson Witzel, por fim, quando atuando na sua estratégia solo, colocou-se como representante, fundamentalmente, da Lava Jato e do bolsonarismo. Desenvolto, agradou parte do eleitorado.

Como mesário naquela eleição, vi pelas roupas e adesivos que a ligação forte entre família Bolsonaro, o candidato ao Senado Arolde de Oliveira (o IBOPE da véspera dizia ele estar em 4º lugar) e o então candidato à governador, Wilson Witzel, havia chegado forte às zonas eleitorais. Quando saiu o resultado da minha urna, no final do processo, não foi surpresa alguma: Witzel foi o mais votado para governador. E ele foi o mais votado em minha cidade, São Gonçalo. Mas não ficou aí. Foi ele o mais votado do Estado, perdendo apenas na capital. E aquela previsão de teto de 14% virou 41%. O segundo turno foi pro forma. Witzel atingiu no bojo da retórica bolsonarista 59% dos votos válidos.

O primeiro ano de governo, novo na seara governamental, passou a acreditar ter sido eleito tão exclusivamente pela sua capacidade política, da sua própria virtù (virtude)[1]. Ele cometeu então um caríssimo erro primário: colocou-se como possível candidato à eleição presidencial de 2022. Mesmo que muitas vezes negasse dali para frente, logo se envaidecia quando os bajuladores o chamava de “presidente”. Era voltar-se contra uma importante parte da sua fortuna (sucesso).

Esses episódios foram sempre me remetendo ao mais famoso livro de tratado político do ocidente: O Príncipe, de Nicolau Maquiavel[2]. No capítulo VII, intitulado “Dos principados novos que se conquistam com as armas e a fortuna dos outros”, Maquiavel começa com uma aula/alerta que Witzel fragorosamente ignorou:

“Aqueles que somente por fortuna se tornam de privados em príncipes, com pouca fadiga assim se transformam, mas só com muito esforço assim se mantêm: não encontram nenhuma dificuldade pelo caminho porque atingem o posto a voo; mas toda sorte de dificuldades nasce depois que aí estão.”

Ser, como gostava de se gabar, um outsider da política, fez com que ele chegasse ao executivo estadual com se fosse quase um voo. Mas isso só foi possível em boa medida pelas forças das estruturas políticas do bolsonarismo e de uma áurea de juiz pró- Lava Jato. É claro que mostrou certa virtude, especialmente no debate, pois soube mobilizar a linguagem e os pontos caros daquela onda de 2018. Mas só isso não seria o suficiente. Ele não foi bem sozinho naquele debate. As armas e virtudes de outros foram fundamentais. Assim, como alertara o antigo florentino na citação anterior, toda sorte de dificuldade nasce depois que aí [no governo] estão.

E ele prosseguiu:

“(…)Estes estão simplesmente submetidos à vontade e à fortuna de quem lhes concedeu o Estado, que são duas coisas grandemente volúveis e instáveis: e não sabem e não podem manter a sua posição. Não sabem, porque, se não são homens de grande engenho e virtude, não é razoável que, tendo vivido sempre em ambiente privado, saibam comandar; não podem, porque não têm forças que lhes possam ser amigas e fiéis.” (meus grifos)

 

O problema, para além de tudo, é que ele pegou uma ALERJ pulverizada como nunca antes. São simplesmente 27 partidos representados! Destes, 12 partidos com apenas com 1 deputado(a)[3]; 4 partidos com apenas 2 deputados; e o maior partido, o PSL, com 9 deputados (12,86% do total), todos eleitos pela primeira vez no mesmo bojo bolsonarista. O partido se dividiu, ainda no primeiro ano, quando criadores e criaturas entraram em choque no ano passado[4]. Assim, a bancada do PSL na ALERJ ficou marcada pelas alas bolsonarista e witzerista, criando fortes instabilidades adicionais, mesmo porque, o primeiro tem como seu alimento fundamental o conflito. Sem isso, ele morre.

Mesmo com um parlamento tão pulverizado e com brigas com o clã do Bolsonaro, Witzel conseguiu aprovações tranquilas no ano de 2019. Ele foi esquecendo de como chegou ao poder, passou a acreditar ser a força maior da política local, uma estrela cada vez mais nacional. Com pulos e socos no ar, como se fosse um jogador de futebol, puxava para si a mídia, mesmo sendo o cenário o fim de uma operação policial que resultou na morte do depressivo sequestrador do ônibus 520D (Jd. Alcântara x Estácio), Willian Augusto da Silva, por um sniper em plena Ponte Rio-Niterói. A avaliação corrente foi de que o governador quis aproveitar o palco para se promover. E ele teve que baixar o tom.

No seu projeto pessoal rumo ao Planalto, não observou uma vez mais as palavras de Maquiavel:

 

“(…) os Estados que surgem rapidamente, como todas as demais coisas da natureza que nascem e crescem depressa, não podem ter raízes e estruturação perfeitas, de forma que a primeira adversidade os extingue; salvo se aqueles que, como foi dito, assim repentinamente se tornaram príncipes, forem de tanta virtude que saibam desde logo preparar-se para conservar aquilo que a fortuna lhes pôs no regaço, formando posteriormente as bases que os outros estabeleceram antes de se tornar príncipes.” (meus grifos)

 

No ano passado, alguns deputados queixaram-se que não eram recebidos pelo governador. Quando eram, isso ocorria só após longas esperas. Esta situação me lembrou as queixas dos parlamentares federais quando ainda do primeiro governo Dilma. Essa falta de vontade no lidar com os parlamentares, essa falta de traquejo, custou muito caro. O pior é que ela ainda escolheu para articulação alguém a sua imagem e semelhança: o sisudo (e não tão bem quisto no Congresso) Aloiso Mercadante. O resultado todo nós sabemos… Witzel teve até recentemente o seu Mercadante: Lucas Tristão, o secretário de Desenvolvimento Econômico.

 

Com o passar do tempo, os entreveros foram sendo intensificados. Em outubro do ano passado, a ala bolsonarista decidiu acusar o governador de gestor de um bunker com dossiês contra os deputados. Que eles estavam sendo espionados. Um chegou a dizer que descobriu um grampo. Em fevereiro deste ano, o presidente da ALERJ, o deputado André Ceciliano (PT), decidiu fazer o Requerimento de Informações 113/2020, no qual perguntou ao governador, em linhas gerais, se ele mantinha: escutas telefônicas ou ambientais; capturas de e-mails ou sms; agentes infiltrados etc.  Era um recado claro do presidente da Casa. Mesmo que eventualmente mentirosas as acusações, já figuraram como mais um ingrediente para dificultar o estabelecimento das necessárias bases apontadas por Maquiavel.

Dias antes, em 4 de fevereiro, vale relembrar, outro recado já havia sido dado: a reprovação do nome de Bernardo Sarreta para ocupar o cargo de conselheiro da Agenersa (Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico do Estado do Rio de Janeiro), algo que não acontecia há 15 anos. É bem verdade que o afilhado político de Lucas Tristão – o não bem quisto – se esforçou muito para ser reprovado. Não tinha qualquer experiência na área e não sabia responder perguntas básicas, inclusive para que servia uma agência reguladora[5]. Contudo, era mais um recado de que não seria moleza o ano para o governador.

As solicitações de impeachment foram chegando ao parlamento. A fissura foi dilatando… O político que cresceu rápido mostrou ter as raízes imperfeitas. A deusa da fortuna decidiu abandoná-lo. A pandemia chegou, e aquilo que estava submerso veio à tona. Este é o assunto da semana que vem.

[1] A “virtù” (virtude) em O Príncipe não tem necessariamente relação com a ideia que temos, de ser algo positivo, correto, moral. Para o autor, a “virtude” é saber usar qualquer expediente para conseguir ou manter o poder, mesmo que seja algo incorreto ou imoral. Mentir, matar, roubar, dissimular, enganar…todos esses meios seriam válidos se a finalidade fosse o poder.

[2] MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe: ao Magnífico Lorenzo de Médici. Conferir: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000052.pdf

[3] Existe ainda um deputado, Renato Zaca, sem partido.

[4] O Presidente da República, ao buscar maior poder na sigla, decidiu dividir os principais diretórios (Rio e São Paulo) entre os seus filhos; os demais, com aliados próximos. Bolsonaro via o sucesso do PSL como fruto da sua virtude, logo tinha o direito de controlá-lo – especialmente os R$ 200 milhões de Fundo Partidário. A lição maquiavélica serve igualmente para este caso do PSL. Com o insucesso, Bolsonaro decidiu romper com o partido, tornando-se o único caso da História da República em que o presidente tenha feito tal movimento durante o mandato.

[5] https://globoplay.globo.com/v/8295270/

Everton Santos é o autor desse artigo.

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